quarta-feira, 28 de maio de 2014

A Janela do Sobrado


 
 
 
 

A Janela do Sobrado

 
(Autor: Amália Grimaldi - 2014)
 
É madrugada ainda. Vejo o Sol conduzir ao seu lugar destinado a noite que se retira lenta. Segue levando consigo meus suspiros e a lembrança de uma noite mal dormida. Ainda vejo estrelas a refletir o brilho do mistério deste breve instante. Contemplo a aurora. Me visto de sonhos.

Vê você por acaso, aquelas árvores distantes? Não seriam aqueles ciprestes lendários?  Ah, já sei – lá está a curva da estrada para Damasco!

            A janela do sobrado abria as portas do mundo. Entrava e saía sem cerimônia. Até que um dia, na viagem de retorno, me perdi. Os ciprestes desapareceram da paisagem. Havia apenas o eucalipto dominante – supridor da fábrica de papel. E assim, não mais encontraria meu rumo.

Não é que a minha estrada para Damasco desaparecera! Por um instante parei de sonhar. Mas, o desejo de viajar pelo Oriente seria mais forte. Outras janelas se abririam no tempo. Pois, sobrevive-se no sonho. O ser aí se reinventa.

Vê você por acaso vultos de almas da noite em tais muros cuspidos e urinados, caiados de fingimento branco?

Vê, são cacos de vidro ameaçadores, encimam previsões de acontecimentos nefastos na guarda do grande vazio – negligência de um terreno baldio. Patrimônio cobiçado, que ora acolhe os sujos da esquina.

 A vagar pela noite escura vejo assombração de outros. Seria a alma penada do agiota ameaçador em busca de dinheiros perdidos?

A janela do sobrado há muito se fechara. Na sala, antes habitada por insinuantes  réstias de luz, encontraria apenas sombras do que fora antes. E as minhas tranças, via-as jogadas ao chão, ao lado da cega tesoura – o tempo inexorável. E eu, desconsolada, à curva da estrada, perdia-me no sonho, em busca do rascunho que se apagara– o leve poema da menina do sobrado grande.

            Mas, qual tempo poderia ser melhor? Inverno ou Verão? Já vejo o pássaro azul, é fiel à estação. Temente ao vento súbito constrói seu ninho em lugar seguro. Observo que carrega o que parece ser o último naco do dia. Amanhã voltará. Ou quem sabe, não mais. E é assim então que nutrimos a nossa vontade imediata. Amanhã outros pássaros virão.

(foto autor)