quinta-feira, 19 de junho de 2014

A mala na praia








Fotografia: Amália Grimaldi


A mala na praia
(Crônicas do dia a dia - Amália Grimaldi)

 

Final de tarde chuvosa. A mala do náufrago ali à minha frente me fez lamentar uma possível viagem interrompida. Destino fatal? 

Ausente de fortunas, contudo, preenchida por residual sentimento, jazia ali à minha frente, na areia da praia, inchada e molhada, a mala do náufrago incógnito. Num relance, imaginei uma possível identidade ou, um perfil adequado para a desconhecida criatura que seria o dono daquela mala que veio dar na praia do Guaibim após forte ressaca.

Um quê de essencial, quiçá da vida humana,  à qual pertencera,  via-se no seu interior algumas peças de roupa já corroídas pelo efeito do salitre. Com certeza teriam sido aqueles pertences parte emotiva do seu dono,  assim, como todas as coisas que nos pertencem e nos cercam no âmbito doméstico. Imaginei suas mãos em cuidadosos movimentos pensados a dobrar aquelas vestes, ajeitando-as do seu modo a fim de caber no limitado espaço da maleta,  justificando assim quem sabe, toda  a energia do elemento pensante aí contido. Energia essa, que por ser imaterial, é infinita. Uma etérea consciência do ser, digamos assim.

 
Seria viagem curta, sem dúvida, pois a quantidade de roupa era pequena. Havia ainda um par de chinelos de couro já gastos pelo uso. Imaginei-os calçados por criatura de hábitos caseiros, provavelmente em rabugento resmungar em torno do pão-nosso de cada dia.  Permiti-me até, sentir  a ambiência de um chão cimentado liso de uma casa comum de modesto bairro popular. Imaginei a coerência sonora daquele arrastar binário – “cheq-cheq”..., cheq-cheq...”  

 
Mas, foi, sem duvida, a presença de uma escova de dentes, um tanto já gasta, diga-se de passagem, o que me confirmou uma suposição. Arrematei então, que poderia ser de uma pessoa metódica, preocupada com a preservação de seus dentes, quem sabe a requerer cuidados outros. Por tais zelos possivelmente não pertenceria a uma pessoa  jovem. Pois que, assim nos mostra a vida, que é nos verdes anos que a pressa se faz companheira do impensado na ausência de temores de consequências óbvias.

 
Juntando todos os indícios, concluí então, que algo de não muito agradável teria desviado o rumo daquela mala, e do seu dono, é claro, ora definitivamente separados.

 
Planos foram desfeitos, sabe-se lá por que. Pois não seria a mala, este prolongamento emotivo do ser, essa inseparável companheira de viagem, jogada ao mar em plena consciência, como algo destituído de valor. Seguramente que não.

 
Vontades e anseios preenchem as expectativas de uma viagem – a partida e a chegada.  Quando a gente está de malas prontas espera ouvir aquele boa viagem em sinal de bom augúrio. Nos tranquiliza a alma. Será que não merecera ele ensejos de uma boa viagem...?

 
Dei as costas ao evento. Segui meu rumo em direção à foz do rio Taquary, na curiosidade de verificar os estragos da maré de sizígio, a quela mais alta coincidente com a Lua Cheia.

 
Com o passar dos dias, camadas de areia foram soterrando a mala na vala comum do esquecimento definitivo. Viajaria rumo ao ciclo do renovar, provavelmente, na transformação da matéria,  a nutrir elementos outros. Lembrei-me da frase do físico famoso, Lavoisier: “Na natureza nada se perde, nada se cria. Tudo se transforma...” 

 
Mas, preferi enxergar  naquela mala naufragada, uma mensagem, como sendo símbolo de implícita mudança de planos. Pois, nada nesta vida, acontece por acaso.
Então, dei asas à minha imaginação; náufrago de si mesmo, cansado da vida metódica que levava, resolvera aquele homem, desfazer-se de dolorosa escravidão, daquelas ataduras apertadas dos  hábitos de rotina que conhecemos muito bem.  Ainda em tempo livrou-se aquele homem da indumentária sombria em naufrágio tão oportuno. Estaria vivo ou morto de arrependimentos. Quem sabe?

Talvez vestisse ele agora cores mais vibrantes. Nuances tão  necessárias fazendo a alegria de um bom viver... Em liberdade...

 

 

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